Quando o Picadeiro Virou Passarela.
- Lion Moura
- 22 de fev.
- 3 min de leitura
Nos 60 anos da escola de samba Balanço do Morro, o seu samba-enredo foi a vida circense.
Na madrugada do dia 22 de fevereiro, às 01h42, a quinta escola a entrar na avenida trouxe algo que, para mim, foi muito mais do que um desfile.
A escola de samba Balanço do Morro, do bairro das Rocas, em Natal/RN, apresentou um enredo em homenagem ao circo. E, de repente, não era apenas um espetáculo passando pela avenida. Era a minha própria história desfilando diante dos meus olhos.
Eu e minha esposa, Cíntia, fomos assistir ao vivo. E o que vimos ali foi uma celebração de algo que vai além da arte. O circo não é apenas apresentação. O circo é um modo de vida.
Eu sou circense. Não nasci no circo, mas o circo nasceu em mim.
Entrei profissionalmente aos 15 anos, junto com meus pais e primos. Hoje, aos 36 anos, posso dizer com convicção: sou de circo de alma e coração.
Quem observa de fora vê luzes, aplausos e números impressionantes. Quem vive sabe que o circo é comunidade. É morar e trabalhar no mesmo lugar. É transformar colegas em família. E como toda família, existem conflitos, diferenças e desafios. Mas o amor pelo coletivo sempre fala mais alto. Porque ali todos sabem: pertencemos a esse lugar. Somos de circo.
Assistir ao enredo da Balanço do Morro trouxe lembranças profundas. Memórias de estrada, de montagem e desmontagem, de superação, de risos e de encontros que só a vida itinerante proporciona.
E a emoção ficou ainda maior quando vi amigos da vida circense desfilando.
Logo na ala da frente estava meu grande amigo e irmão, Jack Leidson, o mágico Capitão Jack. Com sua presença de palco marcante, apresentou um número onde uma mulher surgia do nada de dentro de uma caixa vazia, arrancando aplausos do público.
Mas a maior mágica está na história dele.
Jack era professor de uma escola particular em Currais Novos/RN, com emprego estável, de carteira assinada e tudo mais. Um dia, decidiu largar tudo para seguir com o Circo Grock, o circo da minha família que estava de passagem por Currais.
Na época, ele nem imaginava que se tornaria mágico. Apenas sentiu o chamado do circo. E um belo dia, de surpresa quando o nosso mágico precisou sair, ele assumiu o lugar. E já estreou diante das cameras de televisão que fazia reportagem para o circo. E ali nasceu o Capitão Jack.
Histórias assim só o circo é capaz de escrever.
E não foi só ele.
Sandrinha, uma grande amiga, também apareceu na avenida. Ela não era do circo. Se aproximou por afinidade, começou como gerente, cuidando das finanças, e com o tempo se envolveu com a magia, ou melhor, com o mágico. Acabou se tornando assistente de mágico, e hoje é a companheira do Capitão Jack, na vida e nos palcos.
O circo tem esse poder. Ele transforma caminhos, cria laços e revela talentos onde ninguém imaginava.
E se o circo transforma destinos, a história da minha esposa, Cíntia, é uma dessas provas vivas.
Desde criança, ela carregava o sonho de viver no circo. Tentou várias vezes, em diferentes companhias, mas por algum motivo nunca dava certo. Portas se fechavam, oportunidades não se concretizavam, e o sonho parecia distante.
Aos 24 anos, ela decidiu fazer uma última tentativa. Se não desse certo dessa vez, deixaria o sonho para trás.
Foi então que o destino a levou até o Circo Grock.
Mesmo depois de receber o convite para seguir com a companhia, a desconfiança ainda a acompanhava. O sonho era grande demais para acreditar imediatamente.
Ela só teve certeza de que aquilo era real quando já estava em cima do caminhão, viajando com o circo pela estrada.
Mas o circo, como a vida, também reserva reviravoltas.
Na primeira cidade, veio a pandemia. O mundo parou. E aquele sonho tão esperado precisou entrar em pausa por dois anos.
Só que foi justamente nesse intervalo que aconteceu a maior mágica de todas.
Durante esse período, construímos nossa família.
Nossa filha, Liz Grock, nasceu em meio à pandemia. Depois, já no tempo da retomada, chegou o Miguel Grock.
O que parecia uma interrupção acabou se transformando em um dos momentos mais importantes das nossas vidas.
Naquela madrugada, ouvindo o samba falar de mambembes, de liberdade e da vida na estrada, tive ainda mais certeza de algo que carrego comigo há anos: o circo é um universo à parte.
Um mundo que nos leva a lugares inesperados. Que nos conecta com diferentes culturas, pessoas e histórias. Um mundo que ensina a viver com simplicidade, a sonhar grande e a seguir em frente, cidade após cidade.
A Balanço do Morro não levou apenas alegorias para a avenida.
Ela levantou uma lona simbólica no meio da cidade.
E dentro dela estavam nossas vidas.
Viva o circo. Viva todos os circenses. Viva essa arte milenar que continua transformando o mundo. 🎪✨






















































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